quinta-feira, 31 de março de 2011

Clarice Lispector





Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Amaduressência


Olho por um instante o movimento vagaroso das coisas. Tudo em mim corre (ULTRA-PASSA) os meus pensamentos, invade meus sentimentos sem que eu defina antes se é em momento o melhor para mim. Sinto que as coisas vagarosamente mudaram, o tempo de espera passou, e alguém chegou? As lágrimas caídas são apenas lembranças de um passado mais que presente. O que é que há? Ainda há ar, mas não há de perder o fôlego se ele partir. Deixe que respire. Ah, respirar!

Perder ou ganhar, suprir ou falir. Deixo-lhe ir, não POR mim, mas PARA mim, te deixo então seguir. Confusões, sensações, disparates, como arde não entender o meu ser. Ser sequer sem ser, como arde deixar arder essa ausência de ti em mim, quando já não cabe um NÓS. E eu deixo que vá, porque é o que há de melhor a se fazer. Eu até confesso que sua hospedagem em mim e nada gratuita foi boa, mas o que há de vir, há também de partir. Com dores de parto de vejo ir, não choro e nem sofro, mas dói doer-se ao doar-se a ti.

As palavras que desde sempre e para sempre foram a minha melhor companhia, já não sabem mais como expressar o que eu já nem sei e nem quero dizer. É que acho que já não sinto e se não sinto, não sai e se não sai eu não sei e se não sei, sei lá.

Estou só e estou cheia de mim, de AMADURESSÊNCIAS, sei que sinto e o quanto sinto, mas fingir que não é melhor para mim, é melhor para ti, não para NÓS, mas é bem melhor que seja assim.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Precisa sim!

A melodia do agora...



Eu sei que vivo a fazer mais do que você merece e precisa, mas eu não faço por ti e sim por mim!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Despedida (Parte I)



Houve um último olhar, aquele que se despedia de tudo que foi bom por um bom tempo. Olhei fundo, sofrida, mergulhando em segundos nos olhos negros daquele homem que eu tanto desejei chamar de meu. Senti a falta de algo e nem sei bem de quê, sei que verdadeiramente nunca tive. Penso em instantes se não foi perda de tempo, (des)penso, pois não.



Oferecemos tanto um ao outro quando pensávamos não ter nada a dar. E é bom saber que mesmo sem entregas, houveram trocas. Eu não sei se o ensinei algo e nem sei se aprendi algo com ele, mas tenho certeza que aprendemos muito com nós mesmos. E mesmo sabendo que não nos lembraremos de momentos, porque simplesmente não houveram momentos eu sei que sempre haverá coisas bem mais importantes para lembrarmos, inclusive um do outro.


Passa o tempo e tudo leva, pouco fica. Os textos que escrevi para mim pensando nele continuaram guardados, a espera de tocarem outras pessoas como um dia tocaram a mim. O que ele guardará de mim? Não sei, mas sei que de mim lembrará quando ler ou ouvir Clarice Lispector e dele irei lembrar quando me deparar com poemas de Carlos Drummond de Andrade e vou é sentir falta dele, ele, o meu Drummond particular. Haverá pouco de um no outro, mas será muito quando nunca houve tanto.


Aquele último olhar, o de despedida, não encerrava a história não acontecida entre nós, mas indicava o inicio de algo que nem sei bem o que é, mas que eu quero descobrir e desejo que ele também queira. Desta vez não haverá convite, haverá braços para um abraço, e que este abra feito compasso um novo ciclo, desde já aceito. Não desisti, apenas cansei dessa esperança desanimada no esperar.

domingo, 6 de março de 2011

Remorso



Você sempre soube me encantar com esse jeito seu de entender o meu dramático. Jeitos nossos, completamente diferentes e estupidamente iguais. Eu ainda não entendo por que não fomos tudo aquilo que queríamos ser um para o outro, talvez nem estivéssemos preparados, talvez a culpa não seja nossa e sim do medo que tanto nos paralisa. Eu sei, você percebeu a maquiagem nas minhas palavras e a forma como deixei o tempo roubar de nós o que havia. Não nego, tive medo. Medo de me entregar a ti por inteira. Hoje o que há em mim é a culpa por não ter acreditado na combinação dos nossos signos, você de câncer e eu de escorpião, impossível encontrar uma combinação melhor: verdade X mistério, céu X inferno.


Hoje em conversas pelo menssenger você sente as pausas que faço entre uma palavra e outra, tudo isso para construir a frase perfeita e não te afastar mais do que já o afastei de mim. Depois de tanta coisa não vivida, de tanta história não acontecida, sobra em nós o respeito, a saudade e em mim a culpa por ter sido tão imprestável para o teu amor, resta também essa timidez e a certeza de que o nosso tempo passou. E continuaremos chorando, continuaremos com a voz embargada quando temos tanto para falar um para o outro.


E é por tudo isso que a voz doce tende a se destacar nos raros encontros, para não ferir ainda mais, para tentar fazer com que o abraço saia das conversas virtuais, porque a verdade é que queremos o mesmo, oferecer um ao outro o que ainda não temos a dar. E continuaremos o resto das nossas vidas unidos, não porque nos amamos, mas sim porque compartilhamos da mesma culpa, do mesmo remorso.

sábado, 5 de março de 2011

Lendo o "Amor"

Hoje pela manhã li "amor" um dos tantos contos da minha "escritora de cabeceira" Clarice Lispector. Me senti extremamente tocada com a "piedade de leãoo" de Ana.
Esta não foi a primeira vez que li o "amor,"mas desta vez senti o que Ana sentiu quando olhei o cego que Ana olhou, "olhei-o como se olha o que não nos ver." Um misto de bondade, piedade e tristeza tomou conta daquela minha leitura, de repente me senti devorando aquelas palavras, atenta e ansiosa para saber o que sentiria Ana e o que o seu sentimento provocaria em mim. Devorei o mundo de Ana, que Clarice escreveu para seus leitores e assim também para mim. O mundo de Ana não era só seu, não é tão meu, mas por um momento me senti nele e sinto, ainda estou.


 
"A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver."

quinta-feira, 3 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Da espera



Eu me doei por inteira a você, mas você recusou todo o afeto que por muito tempo segredei em mim. Eu te ofereci o ombro, eu te disse: “_vai, vem pode chorar”, mas eu esqueci que você nunca chora. Se você viesse até mim, eu te ouviria e faria de tudo pra não me apressar e te atacar, roubando assim um beijo que não seria nem seu e nem nosso.

Eu me entreguei, mas errei ao esperar que fizesse o mesmo. Esperei o abraço que não veio, a boca colada, mas não o beijo. Eu esperei por palavras, você me veio foi com um enigma, pensando que sou tão inteligente quanto você imagina, mas eu não sou, porque se fosse eu não te queria tanto.

A verdade é que nunca esperei nada de você, eu esperei que você viesse até mim, que me dissesse um sim, um não, mas nunca e de forma alguma um TALVEZ que provocaria e provocou uma esperança tão desanimada em mim. Você foi homem demais pro meu lirismo e TALVEZ seja por isso que ainda esteja presente, preenchendo as minhas folhas brancas de palavras jogadas, suicidas a beirar abismos.

Bom, esse é só o primeiro post, espero que gostem!